Alvaredo é um território especial, conforta-nos com o manto verde que cobre a terra, com os verdes que as uvas oferecem. Dentro desta economia local, onde várias famílias trabalham a vinha, predomina uma forte relação de partilha entre a comunidade. Este projecto é um percurso pelas camadas da paisagem e pelas histórias das pessoas que aqui vivem. O dia a dia, as dinâmicas que constroem aquilo que identifica Alvaredo.
Esta acção aconteceu com base numa residência artística, um trabalho de campo extenso, dentro da comunidade. Durante um mês vivi e fiz parte desta freguesia, Alvaredo. Nos diferentes dias de trabalho, tendo iniciado na Páscoa, houve uma ligação instantânea a quem aqui vive - fui recebido como se fizesse parte... saí a sentir-me dentro do que fotografei.
A fotografia enquanto meio, opera com uma relação de debate, entre o que um autor procura e o que a comunidade oferece. Aqui, existe uma busca incessante, uma atenção redobrada a todos os movimentos. Falei da vinha, matéria de importante reflexão, mas foi também importante acentuar a força do rio e das suas pesqueiras, ou das actividades que constroem o esforço da labuta diária. As cinco da manhã esta comunidade está no rio a ver o que ficou preso: se há lampreia; depois vem o trabalho diário, e mais tarde, ao fim do dia, a vinha. Ao fim de semana, o esforço mantém-se, é como se o território não tivesse descanso, como se a terra estivesse sempre a chamar por quem dela trata.
Enquanto fotógrafo, no que remete à metodologia, prevalece um contacto directo, uma envoltura prestada aos assuntos com que me debato, num percurso delicado e dedicado. A preocupação com aquilo que penso e o caminho que cada fotografia percorre até à narrativa final é parte de uma batalha sobre um texto visual que sublinho, numa correspondência entre o que fotografei e aquilo que apresento enquanto proposta.
Este território é uma alegoria constante à dimensão conceptual, da poética imersiva que o conjunto das fotografias pode entregar, num jogo limiar entre uma realidade compreendida e a liberdade de raciocínio na construção da linha condutora. Enquanto fotógrafo documental quero que o meu discurso seja uma perspectiva do trabalho de campo, que as pessoas agora representadas, enquanto parte de um território, sejam a soma daquilo que vivi como autor, da forma como os passos que dei na paisagem sejam o virar de página deste livro, um percurso por uma realidade edificada através da fotografia.