No verso da montanha - por João Gigante
Desde 2014 que parte do meu trabalho passa pela relação da fotografia com o hábito e o habitar. Da memória do “salto”, fotografia da exposição realizada em 2016, ao regresso à pintura, com um conjunto de trabalhos que desenham paisagens construídas: pinturas que respiram um olhar fotográfico, moldadas pela mancha e pela linha.
As fotografias não se limitam a redefinir os componentes da experiência quotidiana (pessoas, coisas, acontecimentos, tudo o que percebemos, se bem que de modo diferente e muitas vezes sem atenção, graças à visão natural) e a acrescentar-lhe um largo conjunto de coisas que nunca chegamos a ver. É a própria realidade que é redefinida: como um objeto para exposição, como um registo para um exame minucioso, como um alvo para vigilância. A exploração e duplicação fotográfica do mundo fragmentam a continuidade e acumulam as peças num arquivo (Sontag, 2012, p.152) interminável...
Partindo da fotografia, a exposição constrói-se como uma reconstrução de novas memórias. A fotografia pode estar no lugar onde Sontag a coloca, numa redefinição da realidade. E as pinturas? O que serão, senão uma extensão desta viagem, um desarticular da regra, uma procura de camadas e linhas que definem um espaço visual em diálogo com esta possível metaforização da paisagem. Uma construção daquilo que penso, da montanha que imagino.
Partindo do que penso e da sua possível representação, onde fica a verdade e a ficção? Serão estas pinturas mais reais do que a própria fotografia? Será este gesto, feito de tempo, mais verdadeiro do que o instante e o seu congelamento?
Aqui fica a discussão que me coloca num lugar de experiência, num duelo entre o código consciente e o mimético, entre a forma pela forma e o gesto: interpretação, intenção e subjetividade. Assume-se que esta prática é um território de investigação, mais do que mera reprodução. Interessa-me pensar este espaço de construção, distorção e ressignificação.
Reconstruir e fruir.
Hoje, o que produzo nasce desta discussão interna e da vontade de habitar novos lugares, simples e reais. Porquê?
Porque venho do monte. Cresci entre histórias da montanha e o trabalho árduo de uma família que habitou e ainda vive estas paisagens. Não as que fotografei e pintei para me espantar, mas aquelas que moldaram quem sou. Sem saudade do saudosismo, penso estes novos espaços e atribuo novas formas ao que piso e respiro.
Sim, sou do monte... da montanha que me há-de cobrir, lembrando quem vem, pois do resto e do que resta também se constroem novos caminhos. Continuo: cubro de tinta o que imagino e fotografo o que não quero esquecer.
João Gigante, 2025